Assassinatos e ameaças desmentem promessa de moderação do Talibã

(FOLHAPRESS) – Após 20 anos longe do poder no Afeganistão, o Talibã voltou a governar o país asiático, desta vez com a promessa de uma administração moderada, sem as práticas medievais que impôs quando esteve no comando, entre 1996 e 2001. O grupo à época foi derrubado pelos EUA, que ocuparam o território na esteira do 11 de Setembro.

Uma das principais diferenças estaria no tratamento dispensado às afegãs. No primeiro período da facção fundamentalista islâmica no controle, as mulheres não podiam trabalhar, estudar fora de casa nem andar sozinhas nas ruas. Se um episódio de adultério fosse confirmado, uma esposa poderia ser apedrejada até a morte -punições assim eram justificadas como “pertencentes à sharia, a lei islâmica”.

Agora, os talibãs prometem que mulheres e meninas terão o direito de estudar em escolas e universidades, ainda que em classes separadas das dos homens. As promessas de moderação do grupo extremista, no entanto, são vistas com desconfiança, principalmente pelo Ocidente. A imprensa internacional já denuncia violações da facção antes mesmo da consolidação de um governo formal em Cabul.

Entre as repressões noticiadas desde que o Talibã assumiu o controle do país, no último dia 15, estão os assassinatos de civis que colaboraram com as tropas americanas, a perseguição de críticos, interferências na imprensa e repressão às liberdades das mulheres.

CANTOR FOLCLÓRICO É ASSASSINADO PELO TALIBÃ

Na última sexta (27) , membros do Talibã mataram o cantor folclórico Fawad Andarabi, conhecido no Vale do Andarabi, localizado na região de Panjhsir, última região do país ainda não controlada pelo grupo.

A música folclórica é um dos principais estilos no Afeganistão, mas o Talibã já deixou claro que não pretende liberar shows e apresentações em público. Após a morte do artista, Zabihullah Mujahid, porta-voz do grupo, disse que o assassinato seria investigado, mas advertiu que “a música é proibida no islã”.

“Esperamos que possamos persuadir as pessoas a não fazer essas coisas, em vez de pressioná-las”, destacou, sem dar detalhes sobre a morte de Andarabi. Na década de 1990, o Talibã permitia o canto religioso, mas baniu outros tipos de música, vistos como distrações aos estudos islâmicos.
Segundo os extremistas, as músicas poderiam encorajar comportamentos impuros.

O ex-ministro afegão do Interior Masud Andarabi comentou a morte do artista em uma publicação no Twitter. “A brutalidade do Talibã continua. Hoje, eles mataram brutalmente o cantor folclórico Fawad Andarabi, que estava simplesmente trazendo alegria para este vale e seu povo. Como ele cantou aqui, ‘Nosso belo vale… A terra de nossos antepassados’ não se submeterá à brutalidade do Talibã.”

PARENTE DE JORNALISTA DE VEÍCULO ALEMÃO É MORTO PELO GRUPO

No dia 19, quatro dias depois da retomada de Cabul pelo Talibã, a agência de notícias estatal alemã Deutsche Welle anunciou que o grupo afegão havia matado o parente de um de seus jornalistas e ferido outro, enquanto procurava pelo profissional em sua casa.

Segundo a DW, o jornalista não foi encontrado, já que estaria trabalhando na Alemanha -ele não teve seu nome revelado, por questões de segurança. Outros parentes conseguiram fugir do Afeganistão a tempo.

Além disso, outros três jornalistas do veículo tiveram suas casas invadidas pela facção, e vários casos semelhantes de perseguição de jornalistas estão sendo noticiados desde o último dia 15.

“O assassinato de um parente próximo de um de nossos editores pelo Talibã é inconcebivelmente trágico e testemunha o perigo agudo em que se encontram todos os nossos funcionários e suas famílias no Afeganistão”, disse Peter Limbourg, diretor-geral da DW.

ÂNCORA APRESENTA JORNAL CERCADO DE MEMBROS ARMADOS DO TALIBÃ

No último dia 27, outra cena na televisão afegã opôs-se à imagem de moderação que o Talibã pretende passar ao Ocidente. Na ocasião, membros armados do grupo apareceram na transmissão cercando o âncora de um telejornal.

O apresentador fazia uma entrevista com um integrante do Talibã. No vídeo da transmissão, compartilhado por uma jornalista da BBC no último dia 29, ele fala sobre o colapso do governo do ex-presidente Ashraf Ghani e afirma que, segundo os dirigentes do novo emirado islâmico, o povo afegão não deve ter medo.

Toda a cena acontece enquanto oito homens armados cercam o apresentador. Até a tarde desta quarta-feira (1º), o vídeo já tinha sido visto por mais de dois milhões de pessoas.

MORTES OCORREM DURANTE MANIFESTAÇÃO CONTRA O TALIBÃ

Vários afegãos aproveitaram o dia 19, quando a independência do país dos britânicos é celebrada, para protestar contra o Talibã. Segundo o jornal The New York Times, várias pessoas foram mortas na cidade de Asadabad, onde membros do grupo atiraram em manifestantes que carregavam a bandeira nacional.

Atos também foram registrados próximos ao palácio governamental, em Cabul, com cerca de 200 pessoas. Os protestos também foram reprimidos violentamente, logo depois, pelos talibãs.

Horas antes, os extremistas já tinham declarado toque de recolher em Khost, cidade próxima à fronteira com o Paquistão, também devido a manifestações de pessoas que carregavam a bandeira do Afeganistão.

Em sua ofensiva militar, em todas as províncias que foram dominadas, o Talibã removeu a bandeira nacional preta, vermelha e verde e hasteou a branca e preta do movimento.

MULHERES OPRIMIDAS E COM MEDO

Desde a retomada do poder pelo Talibã, afegãs evitam sair de casa desacompanhadas, por mais que ainda não tenha havido um comunicado oficial listando restrições de liberdade às mulheres.

Segundo relatos à agência de notícias AFP, as mulheres, quando decidem sair, ainda vestem o hijab, véu que deixa o rosto descoberto. Além disso, universidades e empresas ainda não permitiram o retorno das afegãs, com medo de retaliação do Talibã. Nos muros de Cabul, fotos do rosto de mulheres nas fachadas de salões de beleza foram arrancadas ou cobertas com tinta.

A jornalista Shabnam Dawran contou em vídeo publicado nas redes sociais ter sido impedida de trabalhar na emissora estatal afegã RTA, na qual atuou nos últimos seis anos. Ela relatou que o seu acesso à Redação foi negado, enquanto seus colegas homens mantiveram sua rotina normalmente.

Segundo estudo da organização Repórteres Sem Fronteiras, menos de 100 das 700 mulheres jornalistas de Cabul ainda trabalham em estações de rádio e TV privadas, desde que o Talibã ocupou o poder, no último dia 15. A pesquisa ainda aponta que, em 2020, 510 mulheres trabalhavam para oito dos maiores meios de comunicação e grupos de imprensa em Cabul; agora, apenas 76, sendo que 39 são jornalistas.

MAIS OPRESSÃO CONTRA JORNALISTAS

Também no Dia da Independência, enquanto cobria as manifestações em Cabul, Marcus Yam, jornalista e fotógrafo do Los Angeles Times no Afeganistão, foi violentado por soldados armados do Talibã. Segundo ele, enquanto cobria os protestos, um membro do grupo extremista o socou e o derrubou.

“Eu podia vê-lo segurando sua Kalashnikov com mais força e fiquei com muito medo. O homem, que era alto, continuou gritando”, disse, em relato publicado no jornal em que trabalha.

Depois de dizer que era estrangeiro e ser entendido por um outro membro do Talibã, que também tentava conter os protestos, o tratamento mudou: “Ele se desculpou, mas não por nos espancar. Eles ficaram solícitos: a cada um de nós [Yam estava com um outro jornalista estrangeiro] foi trazida uma garrafa de água fria e uma lata de Monster Energy, uma das favoritas dos soldados americanos que controlavam a cidade até alguns dias atrás”.

No dia 17, dois dias depois de ocupar o poder, membros do alto escalão do Talibã haviam dado a primeira entrevista coletiva, tentando mostrar moderação e prometendo respeitar os direitos das mulheres -dentro do “arcabouço do Islã”.