Atlético-MG se fortalece com mecenas, e Cruzeiro agoniza na segunda divisão

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – No dia 17 de abril 1921, Athletico e Palestra Itália fizeram uma discreta preliminar no antigo estádio do Prado Mineiro, em Belo Horizonte, enquanto a atração principal era o embate entre o América, maior campeão de Minas Gerais da época, e o Luzitano. Nascia, naquela tarde de domingo, uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro.


O Palestra Itália (1921), que mudaria o seu nome para Cruzeiro durante a Segunda Guerra Mundial, logo tomou o lugar dos americanos e passou duopolizar com os atleticanos (fundados antes, em 1908) o domínio no estado. Cem anos depois, os rivais vivem situações bem distintas no campo e nas finanças.

O time alvinegro, com um dos elencos mais caros do país, lidera o Campeonato Brasileiro e celebra classificação à semifinal da Libertadores, após eliminar os argentinos River Plate e Boca Juniors.

Já a equipe celeste, rebaixada à Série B em 2019, ainda não conseguiu se aproximar da briga pelo retorno à elite do Nacional. Atualmente é o 14º colocado, com 25 pontos em 21 jogos.

Não bastasse o abismo esportivo entre as duas equipes, o Atlético conta hoje com uma rede de associados que colocam dinheiro nos cofres do clube, seja para sanar as finanças ou reforçar o elenco com nomes como Hulk, Nacho Fernández e Diego Costa. Disso surgiu a alcunha “4 R’s”, em alusão aos empresários Rafael Menin e Rubens Menin (da construtora MRV), Renato Salvador (Mater Dei) e Ricardo Guimarães (do banco BMG).

De acordo com a demonstração financeira da agremiação, somente no passado foram tomados empréstimos de R$ 324 milhões com terceiros (pessoas físicas e jurídicas), com vencimentos até o segundo semestre de 2023 -quando chegará ao fim o mandato do presidente Sérgio Coelho.

Desse montante emprestado, para R$ 201 milhões não haverá cobrança de juros. Já os outros R$ 123 milhões serão corrigidos de acordo com a Selic (a taxa básica de juros).

Guimarães, dono do banco BMG, fez um acordo recentemente para receber R$ 155 milhões da seguinte maneira: retirou encargos e concedeu descontos, e a dívida então passou a ser de R$ 85 milhões, sendo que R$ 65 milhões serão pagos pelo time cedendo espaços de patrocínio de janeiro de 2022 a junho de 2028, e o saldo restante (R$ 20 milhões) será parcelado em até 92 meses.

“Há mais de 20 atleticanos envolvidos, e eu, de fato, disponibilizei dinheiro para poder ajudar no momento difícil. Não estou cobrando juros, mas não adianta emprestarmos se não está sendo bem utilizado”, diz Rubens Menin à Folha. “O planejamento financeiro foi bem feito, as dívidas do clube serão equacionadas.”

O clube contratou em 2019, na gestão do então presidente Sérgio Sette Câmara, a empresa de auditoria e consultoria EY e encomendou um planejamento estratégico para os próximos cinco anos com o propósito de sanar seus débitos -em R$ 806 milhões naquele ano. A EY fez projeto semelhante com o Flamengo em meados da década passada.

Com investimentos maciços em 2020, quando Sette Câmara trouxe o técnico Jorge Sampaoli e atendeu aos seus pedidos por contratações, o débito saltou para R$ 1,2 bilhão. É a maior dívida entre os principais clubes do país de acordo com a análise econômico-financeira do futebol brasileiro publicada pelo Itaú BBA.

Metade do passivo (R$ 604 milhões) vence no curto prazo (ao longo deste ano). O valor é mais que o triplo de toda a arrecadação do Atlético. Em meio à pandemia, o time viu o seu faturamento cair de R$ 270 milhões para R$ 140 milhões em 2020, segundo o relatório do banco.

Houve uma queda com a impossibilidade de vender ingressos, e parte considerável dos direitos de televisão será contabilizada neste ano, inclusive a premiação de R$ 30 milhões pelo terceiro lugar no Campeonato Brasileiro de 2020, encerrado em fevereiro.
Essa discrepância entre a receita e a dívida a curto prazo causa enorme pressão sobre o caixa, o que geralmente leva os times a dependerem da venda de atletas ou renegociar seus compromissos acumulando novas cobranças de juros.

“No caso do Atlético, dado o conforto que os associados estão proporcionando, me parece que, enquanto o projeto de crescimento do clube estiver em andamento, não haverá dificuldades de lidar com a dívida”, diz o consultor de finanças César Grafietti, autor do estudo do Itaú BBA.

“No Cruzeiro não parece ter havido dinheiro suficiente, tanto que há notícias de atrasos recorrentes. A diferença entre os clubes é que o Atlético cresceu custos na busca de novas receitas e tem apoio externo para isso, enquanto o Cruzeiro precisa reduzir ainda mais os custos para que caibam num orçamento cada vez mais limitado”, completa.

A dívida do time azul e branco é quase a metade da dos atleticanos (R$ 662 milhões), mas a diretoria da equipe támbem gasta mais do que fatura.

Com o rebaixamento, o Cruzeiro obteve no seu primeiro ano na Série B (2020) um faturamento de R$ 120 milhões ante R$ 303 milhões da temporada anterior.

Também em 2019, a equipe tornou-se alvo de investigações na Polícia Civil e no Ministério Público de Minas Gerais. As entidades apuram desvios de recursos, falsidade ideológica e falsificação de documentos ocorridos em 2018 e 2019. Na gestão de Wagner Pires de Sá, o clube atingiu o maior déficit da sua história: encerrou o exercício de 2019 com R$ 394 milhões.

“No caso do Cruzeiro, o cenário é bem desafiador. Jogar a Série B e sem público torna a realidade mais difícil. Com queda na arrecadação, sobra menos dinheiro para investir no seu negócio, que é o jogo. Logo, voltar à Série A e retomar as receitas fica mais complicado”, analisa Grafietti. “A pandemia, claro, contribuiu com a falta de bilheteria, mas o maior problema foi sem dúvida a soma do estouro das dívidas com o rebaixamento.”

Acostumado com reforços caros e a brigar por títulos nacionais na década passada -campeão brasileiro em 2013 e 2014 e da Copa do Brasil em 2017 e 2018-, o time azul de belo Horizonte tem um elenco atual sem grandes estrelas e formado em boa parte por atletas que se destacaram nas divisões intermediárias.
As volumosas contratações no passado batem à porta hoje. O presidente Sérgio Santos Rodrigues, ao assumir o Cruzeiro em maio de 2020, adiantou que a prioridade era a de honrar os compromissos com a Fifa, o transfer ban -no qual o clube que deixar de honrar seu compromisso com atleta ou outra equipe poderá ser multado, perder pontos em competições e até mesmo sofrer um rebaixamento.

Em agosto deste ano, a diretoria desembolsou R$ 8 milhões para encerrar uma cobrança do Al Wahda, dos Emirados Árabes, pelo empréstimo do volante Denílson. A inadimplência já havia retirado seis pontos do Cruzeiro na Série B do ano passado e poderia rebaixar o clube à Série C neste ano. O volante permaneceu por seis meses no clube, em 2016, e atuou em apenas cinco jogos.

Atualmente há duas pendências na Fifa que impedem o Cruzeiro de registrar a contratação de atletas. Uma de R$ 7 milhões com Defensor (URU), pela aquisição do meia Arrascaeta, e outra de R$ 6 milhões com o Mazatlán (MEX), pela compra do atacante Riascos. Os dois negócios foram fechados em 2015.

“De fato é a realidade que o torcedor do Cruzeiro precisa encarar. Pedem a contratação de meia e de atacante, mas não temos essa perspectiva no curto prazo. Somente se acontecer alguma situação excepcional, como a venda de algum imóvel”, afirmou Rodrigues, em entrevista coletiva no mês passado.

Procurados, dirigentes de Atlético e Cruzeiro não atenderam aos pedidos de entrevista.