Bezerra defende cassao de Eduardo: defesa do AI-5 absurda

O deputado federal Carlos Bezerra (MDB), que chegou a ser preso pela ditadura militar em 1964 acusado de subversão pela militância no movimento estudantil e permaneceu 60 dias encarcerado, classificou como “absurda” a fala do colega de Câmara Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) em defesa do Ato Institucional 5 (AI-5), que gerou indignação nacional nessa quinta (31).

 

Além disso, prometeu votar pela cassação do parlamentar, caso a representação por quebra de decoro que será protocolada pelos partidos de oposição avance no Conselho de Ética até chegar ao plenário.

 

“Isso é o absurdo dos absurdos. O Brasil até hoje vive sob a sombra da ditadura, que deixou uma ferida brutal na nação. Hoje tenho 77 anos e vivi os anos de chumbo. O filho do presidente da República é um irresponsável. Está delirando. A Câmara vai agir de forma enérgica e instalar um processo ético. Com toda tranquilidade, meu voto será pela cassação desse rapaz. O MDB já divulgou nota. Como disse nosso líder Ulysses Guimarães ao promulgar à Constituição de 88, temos ódio e nojo à ditadura”, afirmou Bezerra ao RDNews.

 

Ontem, o MDB divulgou nota repudiando a fala de Eduardo Bolsonaro. O documento é assinado pelo presidente nacional da sigla, deputado federal Baleia Rossi (SP).

 

O filho do presidente da República é um irresponsável. Está delirando. A Câmara vai agir de forma enérgica e instalar um processo ético

“Como Movimento Democrático Brasileiro que nasceu e cresceu na defesa da Constituição, consideramos inaceitável qualquer menção a atos que possam colocar em risco, de novo, a liberdade do cidadão brasileiro. Lutamos contra a ditadura e seu pior mal, o AI-5, que nos marcou como o momento mais triste da nossa história recente. O Brasil espera que não percamos o equilíbrio e o foco no que mais precisamos: empregos e renda para as pessoas”, diz o documento.

 

A declaração

 

Filho de Jair Bolsonaro (PSL), Eduardo afirmou em uma entrevista que, se a esquerda “radicalizar” no Brasil, uma das respostas do governo poderá ser “via um novo AI-5”.  O parlamentar deu a declaração ao falar sobre os protestos de rua que estão acontecendo em outros países da América Latina. A entrevista do líder do PSL na Câmara dos Deputados, foi divulgada ontem no canal do YouTube da jornalista Leda Nagle.

 

O AI-5  foi baixado no dia 13 de dezembro de 1968, durante o governo de Costa e Silva, um dos cinco generais que governou o Brasil durante a ditadura militar (1964-1985).  Considerado um dos atos de maior poder repressivo tomados durante a ditadura,  resultou na cassação de mandatos políticos e suspensão de garantias constitucionais.

 

Poucas horas após sugerir um novo AI-5, Eduardo postou um vídeo em que seu pai defende o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. As imagens são do julgamento do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Na ocasião,  Bolsonaro, que ainda era deputado federal,  dedicou seu voto “pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”.

 

Após as reações de repúdio, Eduardo tentou se redimir  e afirmou que foi mal interpretado e que não existe a possibilidade de o governo do pai  recorrer à supressão de direitos como foi feito na ditadura militar.

 

“Eu peço desculpas a quem, por ventura, tenha entendido que eu estou estudando o retorno do AI-5 ou a que achou que o governo estudava alguma medida nesse sentido. Essa possibilidade é uma interpretação deturpada do que eu falei. Eu apenas citei o AI-5, não falei que ele estaria retornando. Eu fico bem confortável e bem tranquilo para deixar isso daí claro. Não existe retorno do AI-5”, disse Eduardo, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da TV Bandeirantes.

 

Como reação, o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM-RJ) classificou a fala de Eduardo como “repugnante” e passível de punição. O próprio presidente da República o desautorizou dizendo que o filho “está sonhando” sobre o AI-5.