Bioeconomia e indústria foram os temas debatidos no Agroenergia Convida

A bioeconomia, tema que está cada vez mais presente na agenda internacional, e a sua relação com a indústria foram os temas debatidos no último Agroenergia Convida, uma série de lives promovidas pela Embrapa Agroenergia, realizada no dia 23 de outubro. Os convidados foram Davi Bomtempo, gerente executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e Gonçalo Pereira, professor titular e coordenador do Laboratório de Genômica e Bioenergia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Alexandre Alonso, chefe-geral da Embrapa Agroenergia, foi o moderador.

Davi Bomtempo iniciou o debate afirmando que meio ambiente e sustentabilidade são dois temas sempre presentes na agenda estratégica da CNI. “Trabalhamos com dois grandes temas: uso eficiente de recursos naturais e economia de baixo carbono”, disse. Para Bomtempo, o Brasil está bem em termos de políticas públicas para a área ambiental, mas precisa continuar atento se quiser fazer parte de fóruns mundiais como a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

O acadêmico Gonçalo Pereira, coordenador de um estudo recém-lançado pela CNI que relaciona a bioeconomia com oportunidades de negócios, acredita que bioeconomia é a economia do excesso (contrapondo a idéia de economia no sentido de economizar). “É pegar os recursos naturais e, sob a ótica da ciência, trazer bem-estar econômico, social e sustentabilidade”, disse.

Para Gonçalo, o panorama brasileiro pode ser avaliado em três níveis. O primeiro seria o nível básico, em que nenhum país do mundo teria as condições ambientais que o Brasil possui; o segundo seria a parte genética, no qual também levaríamos vantagem e o terceiro seria a ótica do RenovaBio, considerado pelo professor como “o programa mais brilhante do mundo”.

Alexandre Alonso, chefe-geral da Embrapa Agroenergia, concluiu afirmando que a bioeconomia deve funcionar como uma grande engrenagem. Ele questionou quais seriam os desafios para a sua implementação.

Davi Bomtempo foi enfático ao dizer que “a agenda verde precisa de financiamento”. Para o executivo, há questões fundamentais e estruturantes para fazer uma agenda de transição, como por exemplo, a questão regulatória, na qual acredita haver uma fragmentação em relação à bioeconomia. “É preciso ter uma governança coordenada, criar demandas para essa nova economia”, afirmou.

Segundo Bomtempo, a CNI realizou um trabalho recente no qual lista os 16 maiores fundos internacionais que os empresários brasileiros podem acessar para resolver questões climáticas. Uma das motivações do estudo foi o fato de o Brasil não conseguir atrair esses recursos. “De cerca de US$ 500 bilhões disponíveis em fundos internacionais, a América Latina e o Caribe só acessam entre 6% e 7%”, afirmou.

Três vertentes da bioeconomia moderna

Abordando uma das estratégias de atuação da Embrapa Agroenergia, que é a adaptação de biomassa para fins industriais e obtenção de bioprodutos, Alonso questionou os convidados sobre quais seriam as três vertentes da bioeconomia moderna.

Para Gonçalo, o investimento em commodities energéticas seria um caminho. “Devemos competir em três vertentes: produção, transformação e utilização dos resultados”. Para complementar, o acadêmico sugere que a célula biocombustível para automóveis se torne “uma obsessão nacional”.

Sobre questões relacionadas à competitividade, Davi Bomtempo acredita que o investimento do futuro deve ser em combustíveis renováveis. “O estudo traz uma clareza grande e hoje o Brasil consegue produzir produtos sem petroquímicos utilizando a biomassa. A questão agora é como dar preço a esses produtos”, afirmou.

Mercado de CBios e investimento em C&T

Alonso questionou os convidados se o mercado de CBios seria o caminho da precificação da nova bioeconomia. Gonçalo afirmou que é exatamente esse o caminho. “A bioeconomia é a precificação por valor”, disse.

Sobre investimentos em Ciência, Tecnologia e Inovação, Davi Bomtempo refletiu que o mundo está mudando muito rapidamente, e que o Brasil não pode ficar de fora. “Há uma pressão grande vinda da sociedade. Uma pesquisa da CNI mostrou que o perfil do consumidor brasileiro está mudando, que ele está muito mais consciente”, afirmou.

Alexandre Alonso lembrou da importância da rastreabilidade dos produtos, uma das exigências do consumidor consciente, e da imensa quantidade de microrganismos presente na biodiversidade brasileira. “Os microorganismos excedem e muito o número de espécies cultivadas. Precisamos valorar de maneira sustentável essa biodiversidade”, disse.

Para Gonçalo, só o desenvolvimento científico permitirá que o Brasil trabalhe no mapeamento e compreensão do que há na natureza. Ele também defendeu o financiamento das pesquisas pelos empresários.

Diminuição das emissões de CO2

Sobre a necessidade de reduzir as emissões de CO2, Davi Bomtempo falou sobre diversas estratégias para que isso ocorra, como a precificação do carbono, a política do RenovaBio e o investimento em energias renováveis. “Uma questão fundamental é considerar as características do Brasil, que tem 60% de cobertura vegetal. Para isso, é preciso focar em ações de combate ao desmatamento ilegal”, disse. E continuou: “O Brasil tem leis modernas e que são referência, mas a simplificação de alguns instrumentos é fundamental”, concluiu.

Para Alexandre Alonso, o Estado deve ser o indutor da bioeconomia. Na opinião de Davi Bomtempo, o empresário precisa de regras claras e segurança jurídica, ou seja, um ambiente salutar para o seu desenvolvimento.

Como solução, Gonçalo Pereira elencou três pontos principais. Em primeiro lugar, aproximar as empresas da academia; criar sistemas de precificação de carbono; e investir pesadamente em educação. “Nada vai adiantar se não investirmos pesadamente na educação, assim como não existe prédio de 30 andares sem uma base”, disse.

Fonte: Embrapa Agroenergia Por Irene Santana