Camila Cabello é Cinderela fashion em filme com Fada Madrinha fabulosa e gay

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Na versão clássica, conhecida por milhões de crianças ao redor do mundo, Cinderela é uma coitada. Ela passa horas esfregando o chão por onde sua madrasta e suas barulhentas irmãs desfilam, sonhando com o dia em que vai cavalgar rumo ao castelo de seu príncipe encantado. E seus sonhos param por aí -ela não é exatamente a mais ambiciosa das princesas.


Quem ajudou a perpetuar essa versão do conto de fadas foi a Disney, que incutiu ares feministas na adaptação em live-action que fez de seu próprio filme animado, em 2015. Mas uma outra versão, que chega ao Amazon Prime Video, promete, agora sim, revirar o conto de cima a baixo.

A protagonista de “Cinderela”, dirigido por Kay Cannon, não tem tempo para choramingar ou cantar baladas de amor enquanto espera pelo príncipe. Ela é uma artista, talentosa com os pincéis e as tesouras, e sonha em um dia abrir seu próprio ateliê de costura. Ela tampouco se abala com as críticas da madrasta -que de vilã maniqueísta virou uma velha conservadora, reflexo dos tempos ultrapassados e machistas em que vive.

“O único motivo que há para contar uma história como essa de novo é poder mostrar como a vida é nos dias de hoje. Eu queria mostrar o que o nosso país [os Estados Unidos] é -multicultural, diverso”, diz Cannon por videoconferência. Este é seu segundo trabalho na direção, e ela roteirizou os filmes “A Escolha Perfeita”, que se aproximam de “Cinderela” pelo humor escrachado e os números musicais pop.

Para dar força à mensagem, Cannon fugiu da princesa branquíssima e loiríssima eternizada pela animação da Disney e escalou para o papel a cantora cubana Camila Cabello, de hits como “Havana” e “Señorita”. “Quando eu li sobre a história dela, que veio para os Estados Unidos muito jovem, com pouco dinheiro e muitos sonhos, eu pensei que ela era a própria Cinderela.”

Mas uma latina no papel nem de perto é a maior das ousadias cometidas por Cannon. Ela substituiu a figura da Fada Madrinha, outrora uma velhinha simpática e um tanto abobalhada, por Fab G, um homem negro, gay e fabuloso.

O papel foi escrito com Billy Porter em mente. Ao aceitar o convite, o ator se certificou de que apareceria em cena com o mesmo glamour e feminilidade que com frequência o escoltam a eventos como o Oscar de 2019, por onde desfilou num smoking preto que, ao chegar à cintura, se transformava num vestido volumoso e elegantérrimo.

“Cinderela” é, afinal, um filme que está muito mais preocupado em subverter o conto de fadas e dar um chega para lá nas ideias ultrapassadas que ele perpetua do que com a jornada de sua protagonista.

“Já era hora”, diz Porter, animado. “Esses contos de fadas, com frequência, são muito problemáticos para pessoas não brancas, queer, até mesmo para mulheres. Essa versão vai direto a esse ponto, porque quer ser um ‘Cinderela’ da era moderna. É tudo muito poderoso e mágico -e a magia não tem gênero.”

Porter era relativamente desconhecido por gente de fora do meio teatral, até que, em 2013, venceu o Tony pelo musical igualmente disruptivo “Kinky Boots”. Ryan Murphy, famoso por raptar estrelas da Broadway e as levar às suas séries, tratou, então, de dar a ele o papel que o tornaria uma celebridade do mais alto escalão -ZPray Tell de “Pose”, que garantiu a ele um Emmy ao tratar da epidemia de Aids na cena ballroom dos anos 1980.

Questionada se não ficou preocupada com a possibilidade de muitos pais não deixarem seus filhos verem sua versão de “Cinderela”, Kay Cannon admite que sim, teve dúvidas sobre até que ponto deveria ousar na adaptação. Mas após uma série de exibições teste realizadas na pós-produção do filme, ela percebeu que mesmo os públicos conservadores se divertiram com o personagem colorido criado para Billy Porter.

“Eu não estou nem aí. Permitir ou não que seus filhos assistam ao filme não muda nada, porque eles vão encontrar de qualquer forma. O filme está aí, para todos verem, e não há como impedir que eles tenham contato com esse tipo de coisa”, diz ele, celebrando o espírito empreendedor dessa nova Cinderela e a realização do que chama de um sonho pessoal.

Isso porque quando era um adolescente gay em Pittsburgh, nos Estados Unidos, e estava sendo criado por uma família fervorosamente religiosa, seu maior desejo era ser a versão masculina de Whitney Houston, sua diva. A cantora, em 1997, assumiu o papel de Fada Madrinha de um outro “Cinderela” diferentão, com protagonistas negros e asiáticos, em 1997.

“Quando eu consegui o papel de Fab G eu saí pela casa gritando que havia conseguido a personagem de Whitney Houston”, diz ele, rindo. “Mas é claro que agora eu dou meu toque de magia pessoal ao filme.”