Cruella estilista retalha costura pulsante e faz caricatura ególatra da moda

Por mais hiperbólica que a vilã Cruella possa soar para quem assiste ao filme homônimo, lançado pela Disney em 27 de maio, é verdade que ela realmente existiu. Ou melhor, que ecos de sua personalidade tão bipolar quanto o cabelo preto e branco, a pretensa genialidade e, inclusive, as roupas exuberantes exibidas e “criadas” por ela no longa são retalhos reais da moda nas décadas pré-pandêmicas.


Em uma primeira leitura, a persona encarnada pela atriz Emma Stone –e por sua rival, “Baronesa”, interpretada por Emma Thompson– diverte a audiência por lhe oferecer o combo de trejeitos, acidez e desdém pelo próximo envolvidos numa capa de suposto glamour, uma caricatura que norteou o entendimento sobre essa indústria a partir da segunda metade do século 20.

A superficialidade com a qual a moda é encarada por parte do público que a rejeita é explorada ao máximo, potencializada pelos embates recheados de puxões de tapete e episódios de assédio moral protagonizados pela dupla.

É que o fio condutor de toda a maldade, neste filme, é a moda, um lugar inóspito de pessoas sem sal acompanhando estetas que disputam o estrelato por meio de planos maquiavélicos e roupas reservadas a uma casta privilegiada de entendidos no assunto.

Espertamente, porém, a direção se apoia na própria moda, aqui na pesquisa dos roteiristas Tony McNamara e Dana Fox emoldurada pelo figurino de Jenny Beaven, para encher os olhos do espectador a ponto de ele, sem perceber, assimilar o legado e a história de nomes da costura.

É possível reconhecer na construção de Cruella, por exemplo, o transtorno maníaco-depressivo do francês Yves Saint Laurent explícitos no documentário “O Louco Amor de Yves Saint Laurent”, de Pierre Thoretton, ou o tormento do britânico Alexander McQueen (1969-2010) até ser compreendido em sua tentativa de quebrar as regras da costura clássica.

O embate entre as línguas francesas e inglesa, aliás, parece uma piadinha interna plantada no filme. A Baronesa personifica o tradicionalismo da alta-costura. Os ateliês de Christian Dior serviram de base para a construção do cenário, assim como o salão do Lycée Carnot, em Paris, ainda hoje usado para desfiles da semana de moda local, ambienta o derradeiro show de horrores resultado das brigas entre as vilãs.

Seus looks, modelados com régua e esquadro precisos, remetem à era dos “couturiers”. Chapelões, joias e acessórios brutos alinhavam o styling saudoso dos bailes de gala do passado.
Esse apego ao passado sobre o qual o filme trata e o desafio dos estilistas consagrados em agradar às novas gerações são conflitos próprios da indústria da moda. O medo de que a velhice enferruje a tesoura justifica a penca de designers contratados nas equipes de estilo, que, assim como na da Baronesa Von Hellman, vez ou outra saem nomões do estilo.

Jean Paul Gautier foi pupilo de Pierre Cardin, assim como Saint Laurent foi de Dior, Givenchy de Elsa Schiaparelli e Emanuel Ungaro de Cristóbal Balenciaga. A história nos livros não esmiúça detalhes sórdidos dessas relações, mas, invariavelmente, os desenhos e alfinetadas voavam soltos pelas mesas de corte suadas assim como mostram as cenas com alta voltagem cômica do filme.

Cruella, por sua vez, destila o vanguardismo inglês, repleto de nomes autossuficientes que balançaram o xadrez da moda desafiando os metros de chiffon franceses.

O chamado “vestido-ícone”, desenhado por ela e roubado pela chefe, representa uma guinada na trama e nada mais é do que uma versão asseada do conjunto escamoso criado por Alexander McQueen para seu último desfile, de verão 2010, e usado por Lady Gaga no clipe da música “Bad Romance”. Uma homenagem não creditada a um dos poucos gênios da moda no novo milênio.

O espírito anárquico da inglesa Vivienne Westwood empresta ao guarda-roupa idealizado por Cruella o início punk de sua carreira, gestado nos mesmos 1970 nos quais a história é ambientada. Também azeita a performance em que sacos de lixo se transformam num vestido, numa clara referência à imagem de Westwood, em 2011, enfiada em um lixão para criticar o descarte da moda.

Esse aspecto sustentável da roupa criada pela personagem, vale dizer, é a alma do que se entende como grande revolução da indústria. Seu epicentro criativo está exatamente em Londres, sede de “estilistas verdes” como Stella McCartney, também chegada naquela imagem da roupa nascida em meio ao lixo, e a jovem designer brasileira Renata Brenha.

Já o visual gótico apocalíptico assumido por Cruella na última fase de sua metamorfose, parece saído dos desfiles recentes do georgiano Demna Gvasalia na grife Balenciaga, enquanto sua versão boa e transgressora, a Estella, mostra-se síntese da feminista de boina, saia e jaqueta desenhada pela atual diretora criativa da Dior, a italiana Maria Grazia Chiuri.

Mesmo a ideia de transmutação aplicada a uma capa branca convertida em vestido vermelho, este surtido em meio a chamas acionadas num estalar de dedos, também encontra par a altura na vida real dos desfiles.

Espécie de engenheiro da costura, o cipriota Hussein Chalayan há tempos choca plateias com roupas que viram do avesso ou mudam de cor, formato ou comprimento em plena passarela por meio de dispositivos escondidos na trama.

Para quem se prestar a olhar de perto, o mosaico de ideias aliviaria o conceito estereotipado que “Cruella”, o filme e a vilã, carregam consigo. Mas não era mesmo a intenção repensar os conceitos sobre a moda. Mesmo o fim do uso de pele animal na costura, novo mantra das grifes e principal ponto fora curva em relação à história original do desenho animado, fica apenas subentendido.

Nada parece mais poderoso do ponto de vista narrativo do que apostar em vilões sorrateiros que usam talento intelectual para esnobar o que entendem como fraqueza alheia.

“Cruella” traz essa leitura, ironicamente, dentro do escopo da moda, um universo que embora seja apontado apenas como desumano e vil, foi construído para ajudar os outros a se afirmar e, por meio de uma outra pele (agora falsa), mascarar as inseguranças. O resto é só intriga.