Delegado diz que em 25 anos nunca viu “crueldade to grande”

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O delegado Francisco Kunze, que está à frente da investigação a respeito da morte de uma menina de 11 anos que teria sido envenenada pela madrasta, afirmou nunca ter se deparado com um caso com tamanha crueldade em seus 25 anos de Polícia Civil.

 

A suspeita foi presa nesta segunda-feira (9), após as investigações apontarem que ela teria matado a criança dando o veneno diariamente em pequenas doses durante dois meses, fazendo com que a menina fosse internada nove vezes antes de morrer.

 

A motivação seria uma herança no valor de R$ 800 mil que a criança recebeu de indenização.

 

O veneno foi ingerido pela garota entre os meses de abril e junho deste ano. No dia 14 de junho, ela não resistiu e morreu. A princípio os médicos suspeitavam de meningite, mas a doença logo foi descartada, após um exame de sangue detectar vestígios do veneno.

 

De acordo com o delegado, a suspeita não confessou o crime. No entanto, com base nas provas ela será autuada por homicídio qualificado.

 

Para Kunze, o crime premeditado pela mulher foi arquitetado com “bastante frieza”, a ponto de ela ver a criança agonizando e passando mal todos os dias sem sentir qualquer remorso.

 

Eu tenho 25 anos de policia, eu já vi muita coisa, mas uma crueldade e frieza tão grande como essa, com a criança

“Eu tenho 25 anos de Polícia. Já vi muita coisa, Mas uma crueldade e frieza tão grande como essa, com a criança… Ela [a garota] tem vídeo na internet, tinha um canal no Youtube. Era uma criança totalmente dócil”, contou.

 

Entenda o caso

 

No dia 14 de junho, a vítima M.P.C.O. morreu de causa até então indeterminada. Ela deu entrada em um hospital particular já em óbito.

 

Inicialmente houve suspeita de meningite, bem como de abuso sexual, pois havia inchaço na genitália. Mas a necropsia do Instituto de Medicina Legal (IML), da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), descartou o estupro.

 

O laudo pericial apontou morte por causa indeterminada. A Politec colheu materiais para exames complementares. Nos exames realizados pelo Laboratório Forense, mediante Pesquisa Toxicológica Geral, foram detectados no sangue da vítima duas substâncias, uma delas veneno que provoca intoxicação crônica ou aguda e a morte.

 

“Essa substância não é encontrada em medicamentos, portanto sua ingestão por humanos somente pode ocorrer de forma criminosa. Os sintomas da sua ingestão são: visão borrada, tosse, vômito, cólica, diarréia, tremores, confusão mental, convulsões, etc.”, explicaram os delegados Francisco Kunze e Wagner Bassi, que conduzem as investigações.  

 

Conforme os delegados, as investigações apontam para autoria da madrasta. “Notamos que a menina era envenenada a conta-gotas, ou seja, ela ia dando um pouquinho do veneno, para não aparecer, porque chega no hospital, a criança está passando mal, morre de causa indeterminada, por alguma infecção, pneumonia, meningite, como muitas vezes suspeitaram”, salientam.

 

Os delegados informaram que todas as vezes em que a menina passava mal era socorrida e levada ao hospital. Lá ficava internada 3 a 7 sete dias e melhorava, em razão de ter cessado a administração do veneno. Mas ao retornar para casa, voltava a adoecer novamente. O sofrimento durou cerca de dois meses, em que a menina ficou internada por nove vezes em hospitais particulares.

 

Na última vez que foi parar no hospital, a menina chegou já em óbito. Por conta disso, o hospital não quis declarar o óbito, mas suspeitava de ser meningite. Nessa ocasião, foi acionada a Delegacia Especializada de Homicídio e Proteção a Pessoa (DHPP), que diante de falta de evidências sobre morte violenta, requisitou vários exames por precaução. Em um desses exames periciais foi detectada a substância venenosa no sangue da menina.

 

A herança

 

Assim, o caso foi encaminhado à Deddica, que procedeu com toda a investigação descobrindo o plano de envenenando, por conta de um herança que a menina tinha recebido, ao nascer, fruto de uma indenização pela morte de sua mãe, durante parto dela em um hospital, na Capital, por erro médico.

 

A ação foi movida pelos avós maternos da criança, que ingressou na Justiça pela indenização, que em 2019, após 10 anos, foi encerrado o processo, com causa ganha a família de R$ 800 mil, incluindo os descontos de honorários advocatícios.

 

Parte do dinheiro ficaria depositado em uma conta para a menina movimentar somente na idade adulta. A Justiça autorizou que fosse usada um pequena parte do dinheiro para despesas da criança, mas a maior quantia ficaria em depósito para uso após a maioridade, aos 24 anos.  

 

O pagamento da ação iniciou em 2019. Até 2018, a menina era criada pelo avós paternos. Em 2017, a avó morreu e no ano seguinte (2018) o avô faleceu também, passando a garota a ser criada, naquele mesmo ano, pelo pai e madrasta. A partir daí, segundo a investigação, começou o plano da mulher para matar a criança com o objetivo de ter acesso ao dinheiro.

 

“Mas quem era responsável mesmo era a madrasta e ela quem gerenciava os cuidados com a menina”, afirmam os delegados Francisco Kunze e Wagner Bassi.

A mulher, que não teve o nome divulgado ainda, foi ouvida após a morte da menina e contou que convive com o pai da vítima desde que ela tinha 2 anos de idade e que se considerava mãe dela. Ela declarou que a afilhada começou a ficar doente em 17 de abril de 2019, apresentando dor de cabeça, tontura, dor na barriga e vômito.

 

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