Lder diz que Bolsonaro vagabundo e que implodir presidente

Em meio ao racha do PSL, o deputado Delegado Waldir (GO), líder do partido na Câmara, foi gravado dizendo que vai implodir o governo de Jair Bolsonaro (PSL).

“Vou fazer o seguinte, eu vou implodir o presidente. Aí eu mostro a gravação dele, eu tenho a gravação. Não tem conversa, eu implodo o presidente, cabô, cara. Eu sou o cara mais fiel a esse vagabundo, cara. Eu votei nessa porra, eu andei no sol 246 cidades, no sol gritando o nome desse vagabundo”, disse o deputado.

A reportagem teve acesso ao áudio, revelado pelo site R7. A conversa foi gravada no gabinete do deputado nesta quarta-feira (16).

O deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) admitiu ter gravado a conversa. Segundo Silveira, “Bolsonaro ficou surpreso e não esperava que houvesse um grupo tão coeso articulado com o centrão”.

Silveira disse ainda que não divulgou a conversa, cuja gravação fora encaminhada por ele a outros deputados ligados ao presidente, incluindo seu filho e também deputado Eduardo Bolsonaro.

“A gente tem que preservar o presidente”, disse Silveira, defensor da permanência de Bolsonaro no PSL desde que o partido seja alinhado ao presidente da República.

Vou fazer o seguinte, eu vou implodir o presidente. Aí eu mostro a gravação dele, eu tenho a gravação

O áudio, de duração de nove minutos, traz uma série de reclamações dos deputados sobre a interferência do presidente na liderança do partido.

O deputado Felipe Francischini (PR) reclamou que Bolsonaro agora quer tomar a liderança de um partido que ele só fala mal.

“Ele começou a fazer a putaria toda falando que todo mundo é corrupto. Daí ele agora quer tomar a liderança do partido que ele só fala mal?”, afirmou.

Vários deles se queixam da reunião no Palácio do Planalto, em que o presidente teria pressionado os deputados a assinarem uma lista para destituir o Delegado Waldir da liderança.

A deputada Professora Dayane Pimentel (BA) diz que não foi ao encontro porque sabia que isso aconteceria. “Eu não fui por isso.”

Um outro parlamentar comenta o fato de que o presidente foi gravado no Planalto e chama ele de burro.

“Pior que o presidente foi gravado. É burro. Foi gravado. Como é que o presidente é gravado?”, diz.

O grupo de deputados do PSL também demonstra insatisfação com o tratamento do Planalto.

“Eu nunca fui tão assediado como agora, tá? O Palácio nunca ligou tanto para mim, desde a minha posse”, diz um deles.

Um integrante da bancada diz que os deputados do PSL foram tratados como “cachorro” desde que Bolsonaro foi eleito.

Ele começou a fazer a putaria toda falando que todo mundo é corrupto. Daí ele agora quer tomar a liderança do partido que ele só fala mal?

“O que a gente está passando? A gente foi tratado que nem cachorro desde que ele ganhou a eleição. Nunca atendeu a gente em porra nenhuma.”

Recuo

Nesta quinta-feira (17), o líder do PSL na Câmara voltou atrás sobre a fala de que implodiria Bolsonaro. “Isso já passou. Nós somos Bolsonaro. Somos que nem mulher traída, apanha, mas mesmo assim volta ao aconchego”, afirmou Delegado Waldir.

O parlamentar contemporizou a declaração, que disse vir de “momento de sentimentos”. “É uma fala de emoção”, afirmou.

Ele disse que foi motivado por um sentimento de que o presidente foi ingrato com os parlamentares. “Não só comigo, com dezenas de parlamentares, com o presidente Luciano Bivar”, disse.

O líder afirmou que trabalhará para unificar a bancada. Waldir disse que os excessos de deputados dissidentes serão punidos.

“Existe o Conselho de Ética da Câmara e do partido, existem várias normas e dentro desse regramento com certeza nós iremos representar contra quem cometeu excessos”, disse na saída de almoço com a bancada, que também reuniu o presidente da legenda.

Derrotas de Bolsonaro

Ainda nesta quinta, o presidente Bolsonaro sofreu duas importantes derrotas, em meio à crise deflagrada entre ele e o presidente nacional do PSL, o deputado Luciano Bivar (PE).

A primeira derrota foi a permanência do Delegado Waldir como líder do PSL na Câmara. Um dia antes, com a ajuda de Bolsonaro, aliados do Palácio do Planalto tentaram destituir Waldir do cargo e substituí-lo pelo deputado Eduardo Bolsonaro (SP), filho do presidente Bolsonaro.

Antes de confirmar a permanência de Waldir, a Secretaria-Geral da Mesa da Câmara dos Deputados conferiu as assinaturas das três listas protocoladas na noite de quarta, duas delas apresentadas pela ala bolsonarista do PSL. Segundo deputados, o presidente atuou pessoalmente para influir no processo.

Em outro capítulo da guerra aberta no PSL, Bivar decidiu destituir Eduardo e o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho mais velho do presidente, dos comandos da legenda em São Paulo e no Rio de Janeiro, respectivamente. Outra aliada de Bolsonaro, a deputada Bia Kicis (PSL-DF) também foi removida da presidência do PSL do Distrito Federal.

O que a gente está passando? A gente foi tratado que nem cachorro desde que ele ganhou a eleição

Num contragolpe, contrariado com o fato de a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) ter assinado a lista de apoio à manutenção de Delegado Waldir como líder do partido, Bolsonaro decidiu retirar a parlamentar da liderança do governo no Congresso. Ela deve ser substituída pelo senador Eduardo Gomes (MDB-TO), que é vice-líder.

Nas redes sociais, Fabio Wanjgarten, secretário especial de Comunicação Social da Presidência, publicou um tuíte, sem mencionar a crise do PSL, destacando a “força popular” de Bolsonaro.

“Não é exagero falar que muitos só estão onde estão por causa do presidente. Jamais teriam saído da irrelevância sem a força popular dele. Dizer que nunca foram ajudados é negar a própria origem. Lealdade e gratidão podem ser esquecidas quando convém, mas não pelo povo”, escreveu.

O esquema de candidaturas laranjas do PSL, caso revelado pelo jornal Folha de S.Paulo em uma série de publicações desde o início do ano, deu início a atual crise na legenda e tem sido um dos elementos de desgaste entre o grupo de Bivar e o de Bolsonaro, que ameaça deixar o partido.

O escândalo dos laranjas já derrubou o ministro Gustavo Bebianno, provocou o indiciamento e a denúncia do ministro Marcelo Álvaro Antônio (Turismo) e levou a uma operação de busca e apreensão da Polícia Federal a endereços ligados a Bivar em Pernambuco.

Na semana passada, diante disso, Bolsonaro requereu a Bivar a realização de uma auditoria externa nas contas da legenda. A ideia tem sido a de usar eventuais irregularidades nos documentos como justa causa para uma desfiliação de deputados da sigla, o que evitaria perda de mandato. O episódio, no entanto, criou uma disputa interna na sigla, com a ameaça inclusive de expulsões.

A aliados Bolsonaro tem dito que só oficializará a saída do PSL caso consiga viabilizar a migração segura de cerca de 20 deputados do PSL (de uma bancada de 53) a outra sigla.

Isac Nobrega/PR

Jair Bolsonaro

O presidente da República Jair Bolsonaro: Racha no PSL

Nos bastidores, esses parlamentares já aceitam abrir mão do fundo partidário do PSL em troca de uma desfiliação sem a perda do mandato. A previsão é de que o PSL receba R$ 110 milhões de recursos públicos em 2019, a maior fatia entre todas as legendas.

A lei permite, em algumas situações, que o parlamentar mude de partido sem risco de perder o mandato -entre elas mudança substancial e desvio reiterado do programa partidário e grave discriminação política pessoal.

Guerra de listas

Na noite de quarta, a ala bolsonarista entregou uma lista com 27 assinaturas para tirar o deputado Delegado Waldir do comando da bancada. Pouco depois, a ala bivarista apresentou sua própria lista, com 31 deputados. Os aliados do presidente apresentaram outra lista, com 27 nomes.

Segundo a Secretaria-Geral, das 27 assinaturas da primeira lista, 26 conferiram. Na lista dos apoiadores de Waldir, dos 31 nomes, 29 foram confirmados. E da terceira, dos 27 nomes, 24 conferiram -a assinatura é comparada com o cartão de assinatura do deputado.

A Secretaria-Geral reportou a análise ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que a chancelou. Pelas regras, a última lista apresentada valeria. Mas, como não alcançou um nome a mais da metade dos parlamentares do partido, foi desconsiderada. Ficou valendo, então, a protocolada pelos apoiadores do Delegado Waldir, a única também com apoio de mais da metade dos deputados peselistas.

Alguns nomes aparecem em listas rivais, como os dos deputados Coronel Chrisóstomo, Daniel Silveira e Luiz Lima. Nesta quinta, Delegado Waldir reuniu jornalistas e afirmou que os dissidentes da ala bolsonarista não serão expulsos, mas poderão sofrer sanções legais.

“Ninguém vai ser expulso. Nós vamos atender o que existe de regras na Constituição, no que existe no regimento da Câmara e dentro do regimento do PSL”, afirmou.

Ninguém vai ser expulso. Nós vamos atender o que existe de regras na Constituição

Apesar do tom pacificador, Waldir criticou “algumas pessoas que não respeitaram o partido, o presidente Luciano Bivar, a minha pessoa e outros parlamentares.”

Ele disse estar sofrendo uma campanha “deliberada” para prejudicar a imagem de alguns parlamentares com fake news. “Esses que estão usando esse critério, propagando difamação, até calúnia, essas pessoas sofrerão as sanções legais”, disse.

 

Raio-x do PSL

271.195 filiados (em ago.19)

3 governadores (SC, RO e RR), de um total de 27 estados

53 deputados federais, de 513; 2ª maior bancada, atrás da do PT (54)

3 senadores, de 81; a maior bancada, do MDB, tem 13

R$ 110 mi – repasses do fundo partidário em 2019 (estimativa)

 

Os dois lados no racha do PSL

Bolsonaristas:

Eduardo Bolsonaro (SP), deputado federal

Major Vitor Hugo (GO), líder do governo na Câmara

Helio Negão (RJ), deputado federal

Carlos Jordy (RJ), deputado federal

Bia Kicis (DF), deputada federal

Carla Zambelli (SP), deputada federal

Filipe Barros (PR), deputado federal

Bibo Nunes (RS), deputado federal

Alê Silva (MG), deputada federal (retirada da Comissão de Finanças e Tributação)

Daniel Silveira (RJ), deputado federal

Luiz Philippe de Orleans e Bragança (SP), deputado federal

Flávio Bolsonaro (RJ), senador (Senado)

 

Bivaristas:

Delegado Waldir (GO), líder do partido na Câmara

Joice Hasselmann (SP), deputada federal e ex-líder do governo no Congresso

Junior Bozzella (SP), deputado federal

Felipe Francischini (PR), deputado federal (presidente da CCJ)

Sargento Gurgel (RJ) deputado federal (cotado para substituir Flávio Bolsonaro no diretório estadual do Rio de Janeiro)

Nelson Barbudo (MT), deputado federal

Professora Dayane Pimentel (BA), deputada federal

Delegado Antônio Furtado (RJ), deputado federal

Delegado Pablo (AM), deputado federal

Heitor Freire (CE), deputado federal

Major Olimpio (SP), senador