Moro diz que alertou Bolsonaro que interferência política na PF abalaria credibilidade do Governo

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O ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, em depoimento prestado em 02 de maio à Polícia Federal em Curitiba, reafirmou as declarações realizadas à imprensa que sofreu pressão política do presidente Jair Bolsonaro para trocar o comando a PF no Rio de Janeiro. Clique Aqui e veja depoimento na íntegra.

De acordo com o depoimento, Bolsonaro queria a saída do superintendente da PF do Rio de Janeiro, o delegado Ricardo Saadi. “Durante o período que esteve à frente do Ministério da Justiça e Segurança Pública, houve solicitações do Presidente da República para substituição do Superintendente do Rio de Janeiro, com a indicação de um nome por ele, e depois para substituição do Diretor da Polícia Federal, e, novamente, do Superintendente da Polícia Federal no Estado do Rio de Janeiro, que teria substituído o anterior, novamente com indicação de nomes pelo presidente”, diz trecho extraído do depoimento de Moro.

O ex-ministro disse que apenas aceitou a saída de Saadi, porque o delegado havia manifestado interesse em deixar o cargo. Na função dele assumiu o delegado Carlos Henrique Oliveira Sousa, que conforme o depoimento de Moro, foi nomeado com autonomia pela própria Polícia Federal.

Moro afirmou que preservou a autonomia da Polícia Federal, mas quando percebeu a interferência política do presidente na corporação, (troca do delegado-geral Maurício Valeixo, presidente pediu para ter acesso a relatórios de inteligência da PF), pediu demissão em 24 de abril.

“O próprio Presidente da República em seu pronunciamento na sexta-feira, dia 24 de abril de 2020, declarou que um dos motivos para a demissão do Diretor Geral da PF seria a falta de recebimento de relatórios de inteligência de fatos nas últimas 24 horas”, diz documento.

Porém, ele negou que Bolsonaro tenha cometido crime ao interferir politicamente na PF. “Perguntado se identificava nos fatos apresentados em sua coletiva alguma prática de crime por parte do Exmo. Presidente da República, esclarece que os fatos ali narrados são verdadeiros, que, não obstante, não afirmou que o presidente teria cometido algum crime. QUE quem falou em crime foi a Procuradoria Geral da República na requisição de abertura de inquérito e agora entende que essa avaliação, quanto a prática de crime cabe às Instituições competentes”, consta em outro trecho do depoimento.

Sobre nomear Alexandre Ramagem como diretor-geral da PF, o ex-ministro afirmou que pensou na possibilidade como forma de minimizar o conflito com Jair Bolsonaro, porém, chegou à conclusão que não poderia trocar o diretor-geral sem que houvesse uma causa, além disso, Ramagem tinha ligações próximas com a família do presidente, e que isso afetaria a credibilidade da Polícia Federal e do próprio Governo, prejudicando até o Bolsonaro.

O ex-ministro confirmou que seu celular foi alvo de hackers em 2019, e, que desde então passou apagar mensagens trocadas de forma periodica, entre elas com o presidente, no entanto, garantiu que tem outras mensagens trocadas com Bolsonaro que podem ser relevantes para a investigação, inclusive outra mensagem sobre o Inquérito no STF e outra com determinação do presidente de que o delegado Maurício Valeixo seria “substituído essa  semana a pedido ou ex-ofício”, além de outra com indicativo de desejo dele (Bolsonaro) de substituição do Superintendência Regional da PF no Pernambuco.