Mulheres que não vivem sem batom mantêm o hábito na pandemia

Na indústria da beleza, há um conceito chamado “efeito batom”: mesmo em períodos de recessão econômica, essa maquiagem aumentava suas vendas. A explicação é que as mulheres gostavam de se dar esse pequeno agrado como forma de compensar o período de restrição.


A pandemia de Covid-19 mudou um pouco esse cenário. Com o uso de máscaras e as restrições de circulação, a boca perdeu um pouco o foco. O consumo de maquiagem para os lábios teve queda de 32% em 2020 na comparação com o ano anterior -acima dos 18% de retração das maquiagens como um todo-, segundo a Abihpec (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos).

Alheias a esse movimento, algumas mulheres não estão nem aí para o fato de que não vão sair de casa ou de que, no caso de que o façam, ninguém vai poder reparar nas bocas delas. Elas, simplesmente, não vivem sem batom.

É o caso da escrevente judiciária aposentada Keila Segui, 61. Moradora da Vila Campestre (zona sul de São Paulo), ela conta que passar batom só não é a primeira coisa que ela faz quando acorda porque escova os dentes antes. Depois do café, mais uma retocada e assim ao longo de todo o dia. Ela passa batom até antes de dormir.

“Não sei se já passou da vaidade, virou um hábito mesmo”, afirma. “É uma coisa sem a qual não vivo. Tenho batons espalhados por vários cômodos e em todas as bolsas, assim não corro o risco de não ter um à mão quando preciso.”

Segui diz que o batom entrou em sua vida na adolescência. “Comecei a comprar aqueles brilhos e fui substituindo a manteiga de cacau, que eu sempre passava”, conta. “Até hoje eu implico quando vejo mulheres e homens com a boca seca (risos).”

Desse modo, a maquiagem para os lábios passou a fazer parte integrante da vida dela. “Gosto de me ver arrumada”, explica. “Com o batom, me sinto mais bonita, mais segura e mais sensual, é uma maneira até de mostrar respeito ao outro, de que você se importa com o outro e consigo mesma.”
A relação é forte a ponto de a aposentada ter várias histórias relacionadas ao item, como quando foi roubada no ônibus e levaram uma bolsinha com uns 15 batons dentro. “Foi pior que se tivessem roubado dinheiro”, lamenta.
Além disso, ela considera alguns deles como afetivos, como os que o marido lhe presenteou de surpresa quando os dois eram recém-casados e os que as filhas trazem de viagens. “Minha família está toda alertada que, quando eu morrer, não é para me deixar sem batom no caixão”, diz, aos risos.

Atualmente, Segui usa diversas cores nos lábios, mesmo que eles estejam cobertos pela máscara quando ela precisa sair. “Eu passo para mim mesma, então não me importo se ninguém vai ver”, diz. “As máscaras ficam todas manchadas, mas é bom que não tem como confundir com as do meu marido (risos).”

COLEÇÃO
A fisioterapeuta Paty Beloto, 34, também é apaixonada por batons. Ela criou um perfil no Instagram chamado Um Espelho, Mil Batons e um canal no YouTube para falar sobre maquiagem, com destaque para o item. “Eu coleciono, mas ainda não cheguei aos mil”, diz ela, que no momento possui mais de 200 deles.

Com a pandemia, a profissional de saúde deixou de fazer atendimentos presenciais e tem trabalhado online, fazendo a gestão da uma equipe de profissionais de sua área. Desse modo, ela passa muito tempo em casa e participa de muitas reuniões por meio de videoconferência, mas isso não a desanimou.

“Comecei a me maquiar mais do que quando saia”, afirma. “A maquiagem entrou na minha vida como válvula de escape, uma terapia. Às vezes estou meio na bad [triste] e vou inventando moda. Só vou fazendo. Na hora em que passo a maquiagem, posso estar como for que me sinto bem.”

Com o tempo que economiza ficando em casa, a moradora do Sítio da Figueira (zona leste) aproveita para fazer vídeos e pesquisas na área de maquiagem. “Às vezes na hora do almoço, eu como rapidinho e decido gravar naquele período que eu ficaria no trânsito”, diz. E, assim, quando volta para as reuniões de trabalho está toda produzida.

Ela diz que também não deixa de colocar batom mesmo quando vai sair de máscara. “Eu testo muitos produtos, então aproveito a máscara para ver se é durável”, explica. E dá uma dica para combinar os dois itens: “O batom mais cremoso não funciona, o melhor é usar os com efeito mate, que são sequinhos”.
Esse aprendizado veio com a experiência própria. “Uma vez saí de máscara com um cremoso e, quando voltei, parecia que eu tinha beijado alguém. A boca ficou toda lambuzada. Até brinquei com o meu marido: ‘É, está esquisito’ (risos).”

Beloto conta que a maquiagem entrou em sua vida quando ainda era criança. “Eu já brincava com maquiagens infantis, ficava igual ao meme da menina com o glitter na cara”, diz, aos risos. “Quando era adolescente, tive a fase de me esconder, mas meu pai sempre falava para passar pelo menos um batonzinho.”

Ela afirma que o fascínio pelo batom só foi crescendo desde então. “Por mais que o olhar seja marcante, a boca é o que chega primeiro”, diz. “Quando uso batom, me sindo mais poderosa, posso me transformar na pessoa que quero ser.”

SALA DE AULA
A estudante de teatro Amanda Zanco, 21, também já sentiu o poder transformador do batom. Ela lembra que, no ano passado, a turma da escola de teatro estava desanimada quando a professora elogiou o tom de vermelho que ela usava em uma aula via Zoom.

Foi o bastante para que os colegas propusessem que na aula seguinte todos fossem de batom, o que ajudou a recuperar a disposição da turma. “Eu lembro que foi uma energia e uma sensação de união muito grande”, disse. “Foi muito importante para mim.”
Filha de uma cabeleireira, ela diz que a maquiagem entrou na vida dela desde cedo. “Minha mãe tinha um salão dentro de casa, então, eu observava muito aquele universo”, lembra. “Quando eu tinha uns sete ou oito anos, ela foi me ensinando a me maquiar e a maquiá-la.”
Moradora de Parelheiros (zona sul), ela afirma que a mãe sempre foi muito vaidosa e herdou isso dela. “Até para ir comprar um pão ela passa um batom”, entrega.

Com a pandemia, ela conta que tentou não deixar de se cuidar. “Eu acho muito importante a gente não perder a vaidade”, diz. “A gente acabou ficando mais recluso, mais desanimado. Tento ao máximo não deixar isso se perder, acaba sendo uma característica minha.”

Atualmente, ela tem usado a maquiagem justamente quando precisa de mais disposição. “Toda vez que eu me sinto meio mal, vou para a frente do espelho e me maqueio”, conta. “Às vezes uso uma cor que tem a ver com aquele momento, às vezes é só para me sentir bonita. Tenho feito bastante porque tem virado uma terapia, uma válvula de escape.”

O batom, claro, é um de seus queridinhos. “As pessoas prestam mais atenção na nossa boca quando falam com a gente”, explica. “Por conta disso, desde adolescente eu passei a deixar a boca em destaque, para as pessoas prestarem atenção no que estou falando.”

Ela diz que a cor preferida é o vermelho. “Ponho sempre que posso, é a minha primeira opção”, afirma. “É incrível como o vermelho é poderoso, chama muito a atenção. A boca é uma coisa muito linda e específica, e o batom vermelho dá uma elevada na autoestima. A gente se sente com um poder diferente.”

Zanco lembra que é entusiasta da beleza natural e usa as redes sociais tanto para publicações com maquiagem quanto sem. “A maquiagem para mim é uma arte, porque a gente expressa através do nosso corpo e das cores o que estamos sentimos”, avalia.

BATOM CERTO
A consultora de imagem Aline Nunes, especializada em branding pessoal, diz que o batom é um item muito importante para a construção da marca pessoal de qualquer mulher. “Até porque são raras as mulheres que não usam”, lembra.

Ela diz ver com bons olhos quem continua usando diferentes cores nos lábios, mesmo que ninguém vá ver. “Por mais que a pessoa vá passar o dia de máscara, ela vai receber o efeito psicológico da cor”, afirma. “Isso vai mexer positivamente com a autoestima dela.”

“Além disso, quando tirar a máscara e se olhar no espelho, ela vai ter o impacto”, continua. “O batom entra como um elemento, uma ferramenta externa, que vai aumentar a chance de terminar o dia com um saldo mais positivo que negativo de emoções básicas. Quanto mais emoções positivas você conseguir trazer para o seu dia, melhor.”

O mesmo ocorre nas reuniões por videoconferência. “Nesse novo normal, estamos muito nesse modelo de enquadramento em 3×4”, diz. “Se você fica de chinelo e calça de moletom na parte de baixo, funciona trabalhar só a parte de cima do tronco? Sim! Vai ter o efeito na pessoa e em quem está assistindo.”

Ela diz que, apesar de muitas mulheres acharem que algumas cores podem parecer menos profissionais, isso não é necessariamente verdade. “Existe um mito sobre chamar muito a atenção para a boca, muito se fala de forma preconceituosa sobre o vermelho, por exemplo.”
“Sou totalmente a favor de conduzir uma reunião com batom vermelho”, defende. “Você vai se sentir numa posição de poder, porque é uma coisa que mexe com a autoestima de dentro para fora, vai chamar mais a atenção e expandir a zona de comunicação. O efeito da cor é exatamente na região em que ela é aplicada. Colocar um batom vermlho na boca vai trazer essa pulsação para a sua fala.”

Nunes diz que não existe certo e errado com relação às cores, porque tudo depende da imagem que você quer passar, mas é possível encontrar um produto que harmonize melhor com você. “O batom certo e a cor certa são aqueles que chegam junto com você”, explica. “Se chegam antes, é um sinal de que está de mais. O ideal é não estar nem de mais nem de menos.”

Geralmente, os tons que ficam melhor em cada pessoa podem ser descobertos em um processo de coloração pessoal, no qual é possível descobrir a cartela de cores que cai bem naquela pessoa (seja na maquiagem ou na roupa).

Para quem não tem dinheiro para investir em uma profissional que presta esse serviço, ela diz que algumas marcas de maquiagem oferecem essa consultoria online de forma gratuita. E também dá a dica para quem quiser tentar escolher a cor mais harmoniosa sozinho. O mais importante é entender se você tem alto, médio ou baixo contraste entre o cabelo, os olhos e o tom de pele.

“Se esse contraste é alto, significa que vai aguentar batom mais forte, enquanto se o contraste for baixo a aposta são as cores mais clarinhas”, indica. “Vale se observar no espelho. Se, ao usar aquela cor, a sua aparência fica iluminada e com viço aquela cor está adequada. Se, pelo contrário, rosto ficou cansado e com manchas, evite.”