Peru deverá ter 2º turno entre ‘outsider’ e político tradicional

Peru deverá ter 2º turno entre ‘outsider’ e político tradicional

Na corrida presidencial mais fragmentada da história do Peru, o líder de esquerda azarão Pedro Castillo, 51, que subiu nas pesquisas a toda velocidade na última semana e manteve a dianteira na apuração desde a noite de domingo (11), deve confirmar sua vaga na próxima fase.

Com 89% dos votos apurados, o cenário mais provável é que ele dispute o segundo turno, em junho, com um adversário de direita: a ex-congressista Keiko Fujimori, 45, ou o economista Hernando de Soto, 79. Seu opositor pode ser ainda o candidato de ultradireita Rafael López Aliaga, que está sendo chamado de “Bolsonaro peruano” pelo vínculo com a Igreja Católica -ele é membro da Opus Dei- e pela pauta conservadora nos costumes.

Até às 20h desta segunda-feira (12), Castillo liderava a disputa com 18,88%, seguido por Keiko (13,25%), De Soto (11,90%) e Aliaga (11,86%)

Com uma distância pequena, ficavam para trás a esquerdista Veronika Mendoza, a ex-promessa dos últimos anos (Julio Guzmán), o populista Yohny Lescano, o ex-jogador do Alianza Lima George Forsyth e até um ex-presidente, Ollanta Humala (2011-2016).

Castillo, 51, é uma surpresa para muitos analistas. Durante a transmissão dos primeiros resultados, a CNN em espanhol sequer tinha foto dele para colocar no quadro. Castillo se mostrou ao mundo de modo pitoresco, indo votar montado em seu cavalo, em Cajamarca (na região andina).

Sindicalista e professor do ensino médio, Castillo ficou conhecido ao liderar greves de docentes, a mais famosa em 2017. “Queria agradecer aos povos esquecidos de meu país, cumprimentar os homens e as mulheres que estão nos cantos do país, cumprimentar os que estão além das fronteiras da pátria, onde o Estado não chega. Hoje o povo peruano acaba de tirar a venda dos olhos”, disse, ao saber dos primeiros resultados que o colocavam na dianteira.

Candidato da aliança Perú Libre, ele defende maiores salários a empregados do setor da educação. Tem discurso anticorrupção e propõe dissolver o tribunal constitucional e a Constituição de 1993 –segundo ele, os responsáveis por permitir práticas irregulares.

Algumas de suas promessas de campanha são consideradas bastante autoritárias. Castillo planeja, por exemplo, regulamentar os meios de comunicação e acabar com “a televisão que só propague lixo”. E prometeu reduzir o funcionalismo público, que considera corrupto.

O candidato é contra o aborto, o matrimônio igualitário e a eutanásia. Na economia, promete mais intervenção do Estado e a nacionalização de empresas petrolíferas e da produção de energia. Castillo afirma que sua nova Constituição implementará uma “justa divisão de bens” no Peru.

Menos surpreendente é a candidatura de Keiko Fujimori, 45, que concorre à Presidência pela terceira vez. Nos últimos tempos, a ex-congressista armou uma carreira política própria –depois de muitos anos conhecida como “a filha de Fujimori”, em referência ao ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000).

“Se Keiko ganha ou Keiko perde, hoje, será mais por seus méritos ou erros, sua trajetória política já é longa o suficiente para que responda por seus acertos ou equívocos”, diz o analista Alberto Vergara.

Bacharel em administração de empresas pela Universidade de Boston, Keiko é casada com um norte-americano e tem duas filhas. Durante o último mandato, liderou o Força Popular, partido fujimorista, em suas tentativas de derrubar Pedro Pablo Kuczynski –para quem havia perdido em 2016 por uma diferença de pouco mais de 50 mil votos.

A perspectiva de que ela chegasse ao poder naquele ano levou multidões às ruas em protestos contra um possível retorno do fujimorismo. Com isso, a esquerda decidiu, de última hora, apoiar PPK (como é conhecido), e ele acabou vencendo o pleito.

Em 2018, Keiko foi presa, acusada de lavagem de dinheiro e de recebimento de caixa dois da empreiteira brasileira Odebrecht. Em 2019, conseguiu habeas corpus, mas o caso ainda não foi concluído.

Embolado com Keiko, o economista Hernando de Soto seria uma opção para a direita mais conservadora, uma vez que defende uma pauta tradicional nos costumes, porém liberal na economia. De Soto cresceu fora do Peru, quando sua família fugiu do regime militar imposto por Manuel Odría (1948-1956), e estudou na Suíça. Economista, trabalhou junto a organismos internacionais em estratégias para combater a fome nas regiões mais pobres do país.

O ultradireitista López Aliaga, por sua vez, chamou a atenção durante a campanha principalmente por aspectos pitorescos de sua personalidade –ele afirma, por exemplo, usar um cinto com agulhas para suprimir seu desejo sexual e se aproximar a Deus.

Segundo analistas, a eleição deste ano reflete a situação de desmonte dos partidos peruanos, o aumento da desconfiança na política provocada por seguidos escândalos de corrupção e os efeitos da pandemia do coronavírus. O Peru é um dos países da América do Sul mais afetados pela Covid, com 1,6 milhão de casos e quase 55 mil mortes desde o início da crise –e agora vê nova alta de casos.

Apesar do agravamento da pandemia, o pleito foi mantido em sua data prevista em resposta também à instabilidade do governo peruano.

O presidente interino Francisco Sagasti é o quarto do atual mandato, que começou com a eleição de PPK em 2016, que renunciou antes de passar por um processo de impeachment sob acusação de envolvimento com propinas.

Seu sucessor, Martín Vizcarra, foi afastado do cargo em novembro de 2020 depois de enfrentar dois processos de impeachment, também sob a acusação de recebimento de propina, o que o enquadraria na categoria de “incapacidade moral”, impedindo a continuidade dele no cargo.

Na sequência, assumiu, por apenas seis dias, o congressista Manuel Merino de Lama, que renunciou depois dos episódios de violência nas ruas que vieram na esteira da crise institucional no país.Pedro Castillo, 51

Educador formado pela Universidade Privada César Vallejo, possui mestrado em psicologia da educação pela mesma instituição e é professor desde 1995 na aldeia de Puña, na província de Chota, no norte do país, onde nasceu e vive até hoje. Candidato à Presidência pelo partido Peru Livre, integrou o comitê de Cajamarca (departamento onde fica Chota) da sigla Peru Possível, entre 2005 e 2017Keiko Fujimori, 45

Primogênita do ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000), formou-se em administração de empresas pela Universidade de Boston, área na qual possui mestrado pela Universidade de Columbia. Nos últimos anos, foi presa devido ao processo que investiga seu envolvimento no esquema de corrupção da Odebrecht. Disputou a Presidência em 2011 e 2016 pelo partido Força PopularHernando de Soto, 79

Economista formado na Universidade de Gênova, na Itália, possui mestrado em direito internacional pelo Instituto de Estudos Internacionais e de Desenvolvimento, em Genebra, na Suíça. Atuou em diferentes áreas nos governos de Alberto Fujimori, Alejandro Toledo e Alan García. Ingressou no partido Avança País no ano passado para disputar a PresidênciaRafael Lopez Aliaga, 60

Formado em engenharia industrial na Universidade de Piura, possui MBA pela Universidade do Pacífico, ambas no Peru. Fundou a Acres Finance, empresa do setor de hotéis e trens, e é acionista da companhia ferroviária Ferrocarril Trasandino. Conservador, já foi vereador por Lima e concorreu à Presidência do Peru pelo partido Renovação Popular

Por Redação