Relatório da CIA implica González no terrorismo de Estado dos GAL, PSOE veta investigação

Relatório da CIA implica González no terrorismo de Estado dos GAL, PSOE veta investigação

A desclassificação de documentos da CIA que apontam para o envolvimento do ex-primeiro-ministro Felipe González na formação do grupo de mercenários dos GAL fez renascer uma polémica com mais de três décadas.
Felipe González e Pedro Sánchez em 2015.
Felipe González e Pedro Sánchez em 2015. Foto PES Communications/Flickr

“González concordou com a formação de um grupo de mercenários, controlado pelo Exército, para combater fora da lei os terroristas”. Esta frase consta de um relatório secreto da CIA datado de janeiro de 1984 e recentemente desclassificado, citado pelo diário espanhol “La Razón”. E reabriu a polémica sobre a responsabilidade do governo socialista na “guerra suja” contra a ETA.

Por iniciativa do partido basco Bildu, com o apoio dos partidos independentistas catalães, bascos e galegos, foi requerida a abertura de uma comissão parlamentar de inquérito sobre o terrorismo de estado e o papel do ex-líder do PSOE e do governo. Apesar dos juristas do Congresso espanhol se terem oposto a uma audição de González, por não estar sujeito à fiscalização parlamentar, não se opuseram a que ele fosse ouvido no âmbito de uma comissão de inquérito a constituir. Mas os membros do PSOE, PP e Vox na Mesa do Congresso vetaram a constituição da comissão de inquérito, apesar do voto favorável do Unidas Podemos.

“Falar sobre os GAL não é falar sobre o passado, é falar das cloacas instauradas pelo franquismo, que estiveram na transição e que operam hoje contra o Governo pela mão da extrema-direita. Era uma forma de pedir desculpas às vítimas do terrorismo de Estado”, afirmou o primeiro secretário da mesa do Congresso e deputado do Unidas Podemos, Gerardo Pisarello. A expressão “cloacas do Estado” tem sido usada a propósito dos escândalos de vigilância ilegal aos dirigentes do Podemos e da montagem de campanhas por parte de figuras próximas dos comandos policiais destinadas a denegrir a imagem deste partido nos últimos cinco anos. A sua origem está numa declaração atribuída ao próprio Felipe González em plena guerra suja contra a ETA, em que este afirmou que “o Estado de Direito também se defende a partir dos esgotos”.

Esta não foi a primeira vez nos últimos tempos que o PSOE se aliou à direita para travar investigações sobre os meandros do regime. Também a comissão de inquérito aos negócios do antigo monarca Juan Carlos I acabou chumbada pelos mesmos partidos. Citado pelo diário espanhol Público, Pisarello defendeu que o parlamento “não pode ser usado como um muro para proteger a opacidade de ninguém, chame-se Filipe González ou chame-se Juan Carlos de Borbón. Nada nem ninguém em democracia pode pretender ficar à margem do escrutínio público”, afirmou o deputado do Unidas Podemos.

Para a líder parlamentar do Bildu, a decisão da Mesa do Congresso foi “um veto político”, ao contrariar o critério defendido pelos juristas do parlamento. A deputada basca Mertxe Aizpurua diz que foi posto em causa o “direito à verdade, à justiça e à reparação. González tem uma oportunidade de dar a cara e clarificar a sua responsabilidade na criação do terrorismo de Estado”. O partido vai chamar a depor no parlamento três ex-ministros do Interior e um secretário de Estado da Segurança visados nas investigações judiciais ao caso GAL, bem como o antigo juiz Baltazar Garzón, que protagonizou o processo em tribunal.

Pelo PSOE falou a líder parlamentar Adriana Lastra para afirmar que o objeto da comissão seriam “factos investigados, julgados e sentenciados há mais de 20 anos. O meu grupo tem em conta o critério dos juristas, mas também tem posição política. O PSOE condena o terrorismo dos GAL? Claro. O PSOE condena todos os tipos de terrorismo. A posição do PSOE não vai mudar”, afirmou a deputada socialista citada pelo Público.

Os Grupos Antiterroristas de Libertação (GAL) estiveram ativos entre 1983 e 1987, no período em que Felipe González governava Espanha. Tinham como alvo elementos que integravam a ETA ou simpatizantes da luta armada independentista basca e assassinaram dezenas de pessoas, incluindo cidadãos que nada tinham a ver com a organização.

Para levar a cabo esta “guerra suja” foram contratados mercenários franceses, espanhóis e portugueses, que atacavam as vítimas sobretudo no País Basco francês, que servia de retaguarda aos elementos da ETA em fuga às autoridades espanholas. O efeito prático deste terrorismo de estado não se fez sentir na diminuição da atividade da ETA, que continuou a fazer atentados em território espanhol e a cobrar o “imposto revolucionário” aos empresários bascos, mas veio debilitar o refúgio no lado francês da fronteira, por via do aumento da repressão das autoridades de Paris.

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