Um dos maiores produtores do Brasil em 80, Canarana quer apostar novamente no arroz, agora em segunda safra

Em menos de 12 meses, o aumento do preço do arroz nas gôndolas dos supermercados foi de mais de 100%, conforme o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP. Em Canarana/MT, por exemplo, em um supermercado, o saco de 5kg varia entre 23 e 34 reais.

A região do Médio Araguaia, onde estão Canarana e Água Boa, já foi uma das maiores produtoras de arroz do Brasil, mas aos poucos a cultura foi perdendo espaço e dando lugar para a soja, que se mostrou mais viável. Tanto é que hoje, em Canarana, a cultura nem consta na lista com levantamento de produção da Secretaria Municipal de Agricultura. Porém, com valores atuais atrativos, na casa dos R$125,00 a saca de 60 kg em Mato Grosso, os produtores ensaiam apostar novamente na cultura.

O arroz de sequeiro (terras altas) era a cultura escolhida pelos pioneiros que vieram colonizar a região, logo após a abertura das novas áreas. Canarana chegou a cultivar em alguns anos das décadas de 80 e 90, mais de 30 mil hectares de arroz, produzindo mais de 40 mil toneladas, conforme levantamento deixado pelo historiador Arlindo Schwantes (in memoriam).

Produção agrícola de Canarana nas décadas de 80 e 90; Arquivo/AGR.

As primeiras lavouras de arroz, conforme seu Augusto Dunck, pioneiro de Canarana, eram semeadas de maneira comunitária, com a utilização de máquinas em condomínio e a instalação de um secador comunitário, construído em 1974. Ele iniciou o plantio de arroz em 1975, após fazer um financiamento. Cultivava mais de 200 hectares e ficou na atividade por quatro anos. “No começo, o trator nós compramos entre três amigos e depois, um comprou a parte dos outros. O pessoal se uniu muito no início, mas eu quando me escapei do banco, não mexi mais com plantação”, disse Dunck. Segundo ele, a produtividade era superior a 60 sacas/ha.

Assim eram acondicionadas as sacas de arroz na região de Canarana e Água Boa nas décadas de 70 e 80; Foto – Arquivo/AGR.

Para seu Augusto, um dos motivos para os produtores migrarem para a soja era a necessidade da rotação de culturas. O plantio de arroz em dois ou três anos já não produzia mais da mesma forma. “A soja dava mais vantagem, então foram deixando o arroz para plantar a soja”, complementa.

Seu Augusto Dunck (direita) numa lavoura de arroz em 1976; Foto -Arquivo /AGR.

A partir da década de 80, houve um aumento cada vez maior do plantio de soja na safra convencional e do milho durante a segunda safra ou safrinha. Contudo, no ciclo 2020/21, alguns produtores farão testes de como o arroz se adapta na região na segunda safra, plantando depois de colher a soja. O cultivo de arroz safrinha pode ser uma opção aos produtores rurais quando o preço do milho ou do gergelim, semeados em segunda safra, estiverem em baixa.

O produtor Flávio Tiemann, que possui lavoura na região do Culuene, interior de Canarana, já foi um grande produtor de arroz no município e, como muitos, foi diminuindo a área aos poucos. Em 1978, ele chegou a plantar mais de 2.100 hectares e, durante 21 anos, plantou arroz para semente em parceria com uma sementeira, ganhando cerca de 15% a mais que o valor da praça. Quando essa parceria acabou, a área plantada diminuiu consideravelmente. “O arroz era difícil de vender, a gente levava muito calote e isso levou muitos produtores a deixarem de produzir. A soja foi entrando devagarinho”, complementa Tiemann.

Na safra 2019/20, Tiemann plantou 200 hectares de arroz na primeira safra, junto com a soja, produzindo 7.200 sacas. “Não foi bom porque plantei um pouco tarde. Mas com novas tecnologias é possível produzir em torno de 66 sacas por hectare. Se for um ano bom de tempo, pelo valor aplicado, o arroz sempre dá mais lucro que a soja. Teve uns anos difíceis, como em 2006, em que quase todo mundo parou de plantar arroz, mas outro ano em que a soja estava R$17,00, eu vendi arroz a R$42,00, ou seja, três vezes o valor da soja”, relata. Na safra 2020/21, Flávio fará um experimento em 20 hectares de arroz na segunda safra. “Esse ano vou plantar um pouco na safrinha, uns 20 hectares para fazer um teste. Em vez de milho, fazer arroz safrinha”, explicou.

O também canaranense Sérgio Piccinini, que planta arroz há mais de 25 anos, não conseguiu mais áreas grandes para plantar em Canarana, principalmente devido ao crescimento da área ocupada com soja, e nesta safra, plantou em Campinápolis/MT para poder continuar na atividade. “Não estou mais plantando arroz em Canarana porque não consegui área aqui suficiente para plantar lavoura grande”, explica. Na safra 2019/20 ele semeou 2.500 hectares, produzindo uma média de 60-65 sacas/ha. No ciclo 2020/21, Piccinini iniciou o plantio no dia 20 de outubro, semeando o arroz na primeira safra. Ele planta variedades com ciclo de 105 dias e o custo de produção gira em torno de R$ 1.900,00 por hectare.

Conforme Piccinini, outro desafio para os produtores é o clima, visto que o arroz é considerado uma cultura sensível à variabilidade climática. Quando falta chuva na germinação, as perdas acabam sendo grandes. Essa é também a opinião de Flávio, que sugere plantar em intervalos maiores para evitar perdas por frustrações climáticas. “Quando você só planta arroz, você tem que fazer um plantio que tem que levar no mínimo 60 dias. Naquela época o povo se juntava, fazia mutirão, um ajudava o outro e quando saía uma verba, plantava tudo em uma semana. E daí lá na frente, quando faltava uma semana de chuva, perdia tudo. Por isso muita gente deixou de plantar, mas a nossa região sempre vai ser propícia para arroz de sequeiro”, relata Tiemann. 

Para o extensionista da Empaer (Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural) em Canarana, Gildomar Avrella, o arroz de sequeiro na segunda safra é uma cultura viável. Tanto é que a Empaer terá a demonstração de uma variedade no campo experimental durante o Dinetec em janeiro de 2021. “O arroz de segunda safra tem que plantar até o final de janeiro, para não correr o risco de faltar chuva. Hoje já existem variedades precoces de 90 dias. Ao longo desses anos as variedades foram melhoradas e estão mais resistentes do que há 40 anos. Eu acredito muito na viabilidade do arroz segunda safra aqui na região”, conclui.

Por Vitória Kehl Araujo para a AGRNotícias, com a colaboração de Rafael Govari.